Como o COVID-19 pode afetar a saúde mental dos idosos?

Autor: George Luiz Néris Caetano



O acesso à informação é parte da oferta fundamental de qualquer política de saúde pública. Para enfrentar a pandemia de Covid19 há uma enxurrada de informações, notícias, relatos e atos disseminados numa velocidade/cobertura inédita. Por outro lado, o excesso de conteúdo pode desencadear a infomania, que por sua vez facilita o surgimento, ou agravamento, de quadros ansiosos ou depressivos em idosos.
A psicóloga Marilda Lipp2, alerta que o acesso ininterrupto ou demasiado a informações e dados, também conhecido como infomania, diante de uma crise pandêmica pode desencadear nos idosos efeitos perversos em detrimento da saúde mental. O medo da morte eminente, da solidão, o desespero diante de uma possível internação, a sensação de abandono e tantos outros sentimentos podem levar os idosos à uma situação de vulnerabilidade psicológica e agravar cenários trans e pós-traumáticos.
Nos idosos, os sintomas ansiosos podem surgir diante da negatividade dos noticiários, tendenciosos ao caos midiático, ou simplesmente serem agravados pela clausura domiciliar. Os sintomas, na maioria das vezes, são ignorados e tratados como desproporcionais ao cenário de estresse, sendo expressos de forma isolada e contida, mas também de maneira global, ou seja, pode afetando o psíquico, o cognitivo e o comportamental do idoso.
A apreensão ou preocupação irreal com o Covid19 são sinais de alerta para sintomas ansiosos, agravando doenças que já existem ou as fazendo surgir de forma aguda, como o aumento da pressão arterial, insônia, dores de cabeça e musculares, falta de ar, náuseas e tonturas. O estado de vigília constante é cruel! O medo diante do desconhecido que é noticiado e do tal gráfico epidemiológico crescente é agravado pela disseminação de notícias falsas.
O distanciamento social é um celeiro farto para os quadros ansiosos, criando uma intersecção com o transtorno depressivo. Camuflado e facilmente confundido como um processo natural do envelhecimento, o quadro depressivo apresenta-se físico-comportamental, caracterizando-se como uma tristeza contínua, uma apatia seguida de anedonia, falta de prazer nas atividades do cotidiano, ou falta de apetite. O cenário mais alarmante é a ideação suicida ou o desejo de morte.
Seja na ansiedade ou na depressão, o quadro psíquico pode ser agravado pela infomania. Todo cuidado é importante! O tempo de exposição à televisão, rádio e internet, as conversas dentro de casa, já que é um período de distanciamento social, e a forma como a contenção é feita influenciam diretamente na saúde mental do idoso. A violência psicológica é outro fator de estresse. Amedrontar ou intimidar não facilitará as coisas, apenas tornará o ambiente domiciliar uma masmorra com algozes impiedosos.
Cobrar entusiasmo ou respostas positivas pontuais pode ser um gatilho e gerar adoecimento mental no idoso, que possui o direito de desenvolver atividades na qual tenha afinidade. A prática de exercícios físicos, mesmo dentro de casa, é uma forte aliada no combate à ansiedade e à depressão. Esquematizar uma rotina de caminhada, de exercícios, fartamente disponibilizados na internet, ajudará significativamente na manutenção saudável do corpo.
O momento é delicado, de fato, mas não é o fim e nem deve ser tratado como um apocalipse. É preciso maturidade emocional para auxiliar quem mais precisa de atenção e afeto diante do medo e da incerteza. Para isso, certifique-se de não ser o mensageiro de más notícias, substituindo as falas pessimistas por lembranças boas. Esta é uma oportunidade ímpar de produzir novas memórias e resgatar aquelas que o tempo teima em querer apagar. Registrá-las em vídeos ou áudios pode gerar um material riquíssimo para o acervo familiar.
Separe um horário para cada atividade do dia: alimentação, exercício, televisão, música, internet, dando foco maior para as vídeo-chamadas e outras formas de contato virtual. Criar independência tecnológica no idoso é importante neste momento. Ensine-o a manusear aplicativos de mensagem instantânea ou de chamadas de vídeo, além de navegar na internet, minimizando o sentimento de dependência.
Respeite o espaço do idoso, não o infantilize! Busque delegar tarefas e principalmente ser acolhedor na escuta. No lugar de noticiários ou manifestações de caos, crie uma barreira emocional que proteja o idoso. Esteja atento aos sinais de apatia, tristeza, queixas constantes, insônia ou sonolência em horários atípicos.
Seja direto nas perguntas e abordagens acerca dos sentimentos o idoso apresente. Questione abertamente sobre pensamentos negativos ou de morte, pontue falas e deixe-o falar! Construa momentos de união e comunhão com gestos simples, como o cantarolar de uma música antiga, o dançar ou executar uma receita típica.
Distanciamento social não significa isolamento afetivo. Mantenha a segurança sanitária, mas não descuide da saúde mental. Tudo passará e sempre que sentir necessidade peça ajuda! Inúmeros psicólogos, médicos e pessoas do bem estão aptas para auxiliar. Juntos vamos conseguir passar por isso.
1Contato: georgeluiz61@yahoo.com.br

2Cientista, escritora, psicóloga, diretora fundadora do Centro Psicológico de Controle do Stress.

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