Autismo: Um jeito diferente de pensar
Autora: Letícia França
O conhecimento da sociedade sobre o autismo é o essencial para mudar o
modelo educacional brasileiro e transformá-lo ao universo de todos. O dia 2
de abril foi decretado pela Organização das Nações Unidas, em 2007, como o
Dia Mundial de Conscientização do Autismo.
Neste texto, os termos “pessoa com autismo” e “autista” serão utilizados em
referência às pessoas diagnosticadas com transtorno do espectro do autismo. As discussões
que defendem o uso do primeiro termo se baseiam na ideia de que o autismo não resume o
indivíduo, enquanto as que defendem o uso do segundo termo dizem que o autismo faz
parte de sua identidade. Portanto, como não há um consenso do porquê usar um ou outro
termo, ambos foram usados como forma de respeito.
“ A história relata o primeiro estudo de caso sobre o garoto selvagem de Aveyron, chamado
de Victor pelo médico que o acompanhou. Foi encontrado isolado do convívio social por
volta dos 11 ou 12 anos de idade, em uma floresta no sul da França, no ano de 1787,
vivendo com animais. Não falava, nem tinha reações aos sons e às perguntas direcionadas
a ele. O menino foi examinado por profissionais e recebeu um tratamento especializado,
tendo algumas melhoras. À princípio, diagnosticado com retardo mental, muitos médicos
contemporâneos se questionam se o caso de Victor não se tratava, na verdade, de
autismo.”
Carente de pesquisas estatísticas, o Brasil não tem dados oficiais sobre o número de
pessoas com autismo
Não é possível afirmar precisamente a quantidade de brasileiros com transtorno do espectro
do autismo (TEA), porém, estima-se pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que o país
possa ter mais de 2 milhões de pessoas autistas. O que temos de pesquisas referentes a isso é
um estudo piloto, de 2011, realizado em Atibaia, São Paulo, em um bairro de 20 mil
habitantes, que constatou 1 criança autista para cada 367 crianças.
O autismo é um transtorno global do desenvolvimento, é mais flexível do que uma só
condição
Classifica-se o autismo como um transtorno do desenvolvimento, pois diversas áreas do
desenvolvimento são comprometidas, principalmente na comunicação, na interação social e
nos padrões de comportamento. No entanto, pode evoluir de formas diferentes, cada
indivíduo é único e apresenta suas próprias limitações! Por essa razão, usa-se o termo
“espectro”. São muitos os sinais que podem levar a suspeita de autismo, são eles: dificuldades
de comportamentos expressivos e recíprocos para mediar uma interação social, por exemplo,
as crianças autistas podem não olhar nos olhos, não responder pelo nome; atraso na fala;
ecolalia, por exemplo, pode repetir diversas vezes palavras ou frases em contextos diferentes;
movimentos repetitivos; interesse restrito e obsessivo (hiperfoco); estereotipias, por exemplo,
andar na ponta dos pés, girar em círculos; reações incomuns a aspectos sensoriais do
ambiente, como cheiros, texturas, barulhos; respeito a uma rotina bem regrada; muito
incômodo por pequenas mudanças; falta de interesse em compartilhar experiências com
outras pessoas; fuga do contato social; comportamentos inadequados por não entenderem a
função do contato social; dificuldades em entender expressões faciais e sentimentos, como
também, comunicação não verbal incoerente com os sentimentos que a criança autista queria
transmitir.
“Autismo é uma palavra grega “autós” que significa por si mesmo.”
Até hoje, os cientistas não sabem a causa do autismo
O autismo já aparece na fase intrauterina em um ser humano e as características já são
perceptíveis nos primeiros meses e anos de vidas. No entanto, o diagnóstico oficial, no Brasil,
só pode ser dado a partir dos três anos, sendo reavaliado constantemente durante a vida.
Existem várias possíveis etiologias para o autismo, desde fatores genéticos hereditários,em
que há uma combinação de vários genes alterados, no DNA dos pais, que causam o autismo
na criança, podendo estar correlacionados a fatores ambientais, como uso de drogas, consumo
de álcool; causa psicológica: a percepção do mundo diferente que pessoas com TEA têm;
causa comportamental: padrões de comportamento estereotipados e repetitivos. Estudos
recentes apontam as causas do autismo mais para uma disfunção neurológica.
A quem se deve recorrer quando há suspeita de autismo?
O diagnóstico de autismo pode ser muito difícil, pois não existem exames laboratoriais e
neurológicos que apontem para essa condição. O neurologista, neuropediatra ou o psiquiatra
infantil são as especialidades mais aptas para obterem o diagnóstico do autismo por meio de
uma ampla investigação. Outras especialidades também serão acessadas para desenvolverem
um tratamento conjunto, como terapeutas ocupacionais, psicólogos, fisioterapeutas,
fonoaudiólogos. É essencial o trabalho de uma equipe multidisciplinar, os familiares e
professores inclusos, para realizar um bom diagnóstico. E quanto mais cedo ele for realizado,
maior a perspectiva de aumentar as habilidades de convivência do indivíduo com autismo na
sociedade. Algumas ferramentas de avaliações para o autismo: CID-10, PEP-R (perfil
psicoeducacional revisado), CARS (Childhood Autism Rating Scale).
“Você sabia que existe uma carteirinha de identificação para autistas válida em todo o
território nacional?”
Instrumentos internacionais de diagnóstico aceitos pela OMS
A CID-10 (Classificação Internacional de Doenças, décima versão), é um manual de
diagnóstico usado oficialmente no Brasil, possui uma categoria para transtornos globais de
desenvolvimento, na qual apresenta 3 subcategorias que compõem o transtorno do espectro
do autismo: autismo clássico, autismo atípico e síndrome de Asperger. Atualmente, todas
essas condições, antes consideradas como uma forma de autismo, foram unificadas em um
único termo: transtorno do espectro do autismo. O diagnóstico de autismo clássico determina
diversas características referentes a tríade do autismo: comprometimento na interação social,
na comunicação e determinados padrões de comportamento. As características do autismo
atípico aparecem em idade mais avançada e não concentram todos os atributos da tríade, mas
também há uma deficiência intelectual. Os indivíduos com síndrome de Asperger, também
classificada como autismo leve, não têm a demora no desenvolvimento cognitivo e na
aprendizagem, mas possuem problemas nas áreas sociais, profissionais. Em 2018, foi lançada
a CID-11, com data de uso a partir de 2022, cujo critério de avaliação consiste no nível da
linguagem funcional e na deficiência intelectual.
DSM-V (Diagnostical and Statistical Manual of Mental Disorders, 5a versão), embora não
seja aceito no Brasil, é um manual usado por alguns especialistas e classifica o autismo como
alto e baixo funcionamento. Além de promover uma facilidade de diagnóstico, também
dedica maior atenção às comorbidades do autismo, por exemplo, diabetes, déficit de atenção
e hiperatividade.
Porque meninas com autismo são mais difíceis de diagnosticar?
Existe uma prevalência maior de diagnósticos de meninos com autismo do que em meninas,
cerca de 1 menina para cada 4 meninos. Isso ocorre porque as técnicas de diagnóstico
atendem as particularidades do sexo masculino, exatamente por ser esse o gênero mais
prevalente em estudos. Além disso, as características comportamentais em meninos são bem
mais evidentes. As meninas, geralmente, fogem dos estereótipos para suspeitar o TEA porque
tendem a copiar comportamentos de meninas da mesma idade. Por conta disso, terão o
diagnóstico tardio ou considerado outro transtorno, como déficit de atenção e hiperatividade.
“Temple Grandin, nascida em 1947, em Boston, formada em psicologia e doutora em
zoologia, foi diagnosticada com autismo. Em um filme sobre a sua vida, explica como
funciona o autismo. Ela criou os abatedouros humanizados e inventou a máquina do
abraço para aprender como reagir ao contato físico com outras pessoas.”
A pessoa autista deve ser avaliada individualmente para a busca de uma terapia eficaz
É compreensível que algumas famílias passem por complicações emocionais ao se
depararem com supostos tratamentos que prometem uma “cura” para o autismo. Não existe
cura para o TEA! O autismo não deve ser combatido, mas sim aceito. O caminho de maior
conforto emocional é a busca por meios que promovam melhor desenvolvimento do autista.
As terapias para o autismo são infinitas! As abordagens especializadas focam nos problemas
específicos do autismo e nas comorbidades. Existem métodos como Treatment and education
of autistic and communication handicapped children (TEACCH), análise comportamental
aplicada (ABA). A psicomotricidade, ciência que analisa o indivíduo por meio de seu
movimento e interação social, é indispensável para um desenvolvimento global e satisfatório
porque será a base para todo o processo de aprendizagem. Isso porque as crianças autistas vão
utilizar o movimento para conquistar até mesmo as aquisições mais elaboradas, como as
intelectuais. De fato, uma terapia de qualidade deve conter embasamento científico das
necessidades individuais da pessoa com autismo, a fim de focar, principalmente, nas
habilidades mais comprometidas e necessárias à vida; a participação enfática dos familiares,
para se adaptarem à criança, promoverem uma rotina fixa, organizada e balanceada, além de
proporcionarem um ambiente doméstico estável; e a parceria da escola, para adequar o
currículo ao nível do aluno e organizar seu espaço físico.
“No Brasil, a lei no 12764 de 2012, intitulada Berenice Piana, foi criada para promover a
inclusão dos estudantes com autismo, incluindo-os no estatuto da pessoa com deficiência.
Logo, eles podem usufruir de todos os direitos da educação especial inclusiva presentes na
lei.”
Como a escola, a família e a sociedade devem se adaptar para educar o indivíduo com
autismo e promover a sua inclusão?
As crianças com autismo não conseguem evitar ou controlar os estímulos, são metódicas e
respeitam uma rotina, pouco flexíveis a mudanças. A tentativa de mudar essa rotina de uma
maneira brusca para convidar o indivíduo autista ao convívio social é errado e só causa
infelicidade. A maneira mais respeitosa é fazer isso aos poucos para dar conforto. Devido a
falta de compreensão de como utilizamos a linguagem para obter algo e na interpretação de
narrativas, o sujeito autista pouco consegue compreender, enunciar e manter uma
conversação. O ideal é que tanto os professores quanto os pais estabeleçam uma rotina
visualizada com fotos em ordem cronológica das atividades do dia, pois possibilita uma
maior compreensão por parte das crianças. É relevante a valorização da linguagem da criança
autista como um todo, atribuindo significados aos aspectos da comunicação verbal e não
verbal, ao invés de se preocupar só com a fala propriamente dita. A estrutura física da sala de
aula deve ter um espaço amplo, e dividido em ambientes para atividades distintas, por
exemplo, um espaço destinado para brincar, outro para ler, com o arranjo de modo
permanente e previsível. A localização da sala também precisa ser pensada de modo
estratégico: perto dos banheiros, mas longe de ambientes de maior movimento como portarias
e cozinha para evitar distrações. O aluno com TEA também deve se sentar próximo ao
educador, com a sua rotina visualizada por perto e não deve ser mudado de lugar. Além disso,
o ensino não deve ser baseado em decorar palavras e ler, pois muitas crianças com TEA
podem até saber escrever e ler bem, porém, pode ser que não saibam o significado das
palavras. É essencial que ele seja útil, sem muitas abstrações, com recursos visuais
(fotografias, figuras), e também, trabalhado perante as habilidades e potencialidades. Assim,
esse apoio visual ajuda a criança a diminuir sua agitação e ansiedade. O sincronismo entre a
escola e os pais, no sentido do planejamento de um cronograma balanceado e funcional para a
criança, um currículo adaptado e um ambiente escolar organizado são fatores primordiais
para o sucesso da aprendizagem e uma melhor qualidade de vida, aumentando a
independência dos professores, dos terapeutas e da família. Assim, para haver inclusão, é
necessário também o ato de incluir.
Agora, cabe a você, caro leitor, considerando a realidade problemática do nosso âmbito
educacional e a complexidade do cuidado da criança com autismo, despertar novos
questionamentos sobre como a sociedade vem agindo para incluir o aluno que exige um
trabalho de maneira individualizada. Sabendo que não basta só ensinar as habilidades
acadêmicas, mas também desenvolver as habilidades psicoemocionais, cognitivas, usar os
interesses da criança como instrumento de aprendizagem em salas de aula. Como nossos
educadores podem fornecer apoio pedagógico aos estudantes especiais se as salas de aula,
muitas vezes, sofrem com superlotação? Será que eles estão preparados para mudar sua forma
tradicional de educar , adaptar sua comunicação com os alunos, dar atenção recíproca,
receptiva e tolerante? Como vamos exigir esse perfil do educador brasileiro se o sistema
educacional possui tantas carências? O que podemos fazer individual e coletivamente para
que a inclusão prevista na constituição seja, de fato, cumprida dentro e fora das salas de aula?
Autora: Letícia França Contato: @lety_france
Para se aprofundar no assunto, assista:
Série Atypical - disponível na Netflix
Filme Temple Grandin
Canais Diário de um autista e Willian Chimura - disponíveis no Youtube
Referências Bibliográficas
ASSOCIAÇÃO MANTENEDORA PANDORGA. Pandorga formação em autismo. São Leopoldo/RS, Brasil. Disponível em: www.pandorgaautismo.org .
REVISTA AUTISMO Ano VI — número 8. Disponível em: https://www.revistaautismo.com.br/ . Acesso em: 5 de jun. 2020.
GUARESCHI, Taís; NAUJORKS, Maria Inês. A educação do garoto selvagem de Aveyron e a proposta contemporânea de escolarização de alunos com transtorno do espectro autista: possibilidades de leitura. Revista educação especial. v. 29, n. 56, p. 609-620, set./dez. 2016. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/educacaoespecial/article/view/23725/pdf .
ALMEIDA, Marina. Instrumentos diagnósticos para avaliar o autismo - TEA. Instituto Inclusão Brasil, 2018. Disponível em: https://institutoinclusaobrasil.com.br/instrumentos-diagnosticos-para-avaliar-o-autismo-tea/ . Acesso em: 5 de jun. 2020.

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